Aniversário da Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/2006)

Há 20 anos nasceu a Lei Maria da Penha.

E, sinceramente, eu gostaria que hoje estivéssemos comemorando uma sociedade que já não precisasse dela. Mas não é essa a realidade.

Como mulher e como advogada, essa data desperta em mim um sentimento misto: orgulho pela conquista histórica que a Lei representa e indignação por perceber que, duas décadas depois, ela continua sendo indispensável.

O que esses 20 anos nos mostram?

Mostram que mulheres ainda são agredidas dentro da própria casa.

Que muitas ainda são assassinadas simplesmente por serem mulheres.

Que o ciclo da violência continua sendo identificado tarde demais.

Que ainda falhamos em educar nossas crianças sobre respeito, igualdade, limites e resolução pacífica dos conflitos.

Que a prevenção ainda recebe menos atenção do que a punição.

A Lei Maria da Penha transformou o tratamento jurídico da violência doméstica. Criou medidas protetivas, fortaleceu a rede de atendimento, reconheceu as diversas formas de violência — física, psicológica, moral, sexual e patrimonial — e salvou incontáveis vidas.

Isso é um avanço que precisa ser reconhecido.

Mas ela, sozinha, não muda uma cultura.

Precisamos investir em educação desde a infância.

Precisamos identificar comportamentos de risco antes que a violência se torne irreversível.

Precisamos ampliar programas de responsabilização e reeducação dos agressores, aliados ao acompanhamento psicológico, para romper o ciclo da violência.

Precisamos de uma rede que proteja antes da tragédia, e não apenas depois dela.

Nenhuma mulher deveria precisar de uma lei para garantir o direito de viver sem medo.

Enquanto isso ainda for necessário, nossa missão é continuar falando sobre o assunto, denunciando, acolhendo vítimas e exigindo políticas públicas cada vez mais eficazes.

Que o aniversário da Lei Maria da Penha seja, acima de tudo, um lembrete de que ainda há muito trabalho a ser feito.

Porque a verdadeira comemoração será o dia em que nenhuma mulher precisar dela para permanecer viva.

Luciana Codeço
Advogada e sócia do Codeço Rocha Advogados

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